Ícones da Música Instrumental Brasileira

Ícones da Música Instrumental Brasileira

Uma compilação de preciosidades musicas do Brasil
Elaborado e comentado por Avi Alkalay

avi.alkalay.net/imib

Iconologia Instrumental Brasileira

É no Brasil qua nasce a música mais rica e exuberante do planeta.

Devemos isso a grande mistura de culturas que por aqui passaram. Ritmos europeus como valsa e polka, misturados com o Samba originaram o Choro. O Samba é o batuque tribal africano temperado pela vida urbana. A música nordestina com certeza tem suas raízes na Idade Média européia. E assim por diante.

Meu gosto por Jazz, Erudito e MPB conduziram-me a uma busca pela fusão, e assim descobri o Instrumental Brasileiro. Esta fusão é bombástica pois leva a pura inspiração popular a músicos de grande calibre (as vezes o contrário), permitindo criações e interpretações de alto teor melódico, rítmico e técnico. A Música Brasileira me inspira e está em todos os lances da minha vida. É história, pois mostra todos os vetores da Lei da Causa e Efeito. É o legado de um pais colorido.

Este documento musical viaja em dois meios: o CD e a Internet. É documento porque é informação além de música. Criei-o selecionando canções que muito me comoveram. Com vocês, a Música Instrumental Brasileira!

Avi Alkalay

1. Deodora
José Eduardo Gramani
Performance por Anima: Luiz Henrique Fiaminghi: Rabeca. Patrícia Gatti: Cravo. Valeria Bittar: Flauta Doce. Ivan Vilela: Viola Caipira. Isa Taube: Voz. João Carlos Dalgalarrondo: Moringa.
De "Espiral do Tempo". Gravado na Igreja do Mosteiro de São Bento, Vinhedo - SP. 1997-6.
Esta canção de Gramani engana porque a primeira impressão é de algo do oriente, árabe ou hindu. Mas os brasileiríssimos timbres dos pifanos e rabecas não deixa dúvidas de sua nordestinidade. O turbilhão cultural do Brasil do século XVI, recebeu muitas influências ibéricas, e por conseqüência, islâmicas. Este êxtase musical foi incluído na iconologia por muitíssimo bem localizado estar, sobre as fronteiras culturais que aparentemente dividem os povos.
2. Cama de Gato
Arthur Maia
Rique Pantoja
Performance por Cama de Gato: Arthur Maia: Baixo. Rique Pantoja: Teclado. Mauro Senise: Flauta. Pascoal Meirelles: Bateria.
De "Guerra Fria". 1987. Cama de Gato
O Cama está na estrada a mais de dez anos. Seus músicos se espalharam e fizeram grandes participações em momentos antológicos da Música Brasileira. Sua boa dosagem de Jazz o torna um dos primeiros expoente do Instrumental carioca e brasileiro.
3. João Balaio
João Bosco
João Bosco: Voz, Violão.
De "Cabeça de Negro". 1986.
João Bosco é provavelmente o artista branco mais compromissado com a cultura negra de candomblé do Brasil. Esta canção especialmente grave, aqui está para representar a importância de sua obra com Aldir Blanc.
4. Odeon
Ernesto Nazareth
Arthur Moreira Lima: Piano.
Ernesto Nazareth viveu nos primórdios do Choro, e ainda é referência de grande personalidade e compositor. Odeon era uma sala de cinema no Rio, e os filmes antigamente eram mudos, então Ernesto lhes emprestava mais vida tocando piano ao embalo do enredo.
5. Gismontada
Duofel
Performance por Duofel: Luis Bueno: Violão. Fernando Melo: Violão de 6 e 12 cordas. João Parahyba: Percussão e Programação eletrônica.
De "As Cores do Brasil". São Paulo. 1990-3.
Enquanto o Rio renova a música tradicional brasileira, Sampa inova. O DUO do FErnando e do Luis nasceu para tocar com a banda de Tetê Espíndola. Sempre originais, com certeza criaram esta elétrica canção em homenagem a Egberto Gismonti.
6. Baião Cigano
Nonato Luiz
Nonato Luiz: Violão. Djalma Corrêa: Percussão. Luiz Alves: Baixo acústico. Mauro Senise: Flauta. Clarisse Grova: Voz.
De "Gosto de Brasil". www.nonatoluiz.com.br
Simplesmente tocante. Cearense, Nonato é pouco conhecido no Brasil, mas é muito admirado na Europa e EUA. Sempre invocando o nordeste em sua obra, inspirou-se nesta canção em sua infância onde via ciganos migrando pelos sertões.
7. Curumim
Cesar Camargo Mariano
Marco Pereira: Violão. Mingo: Percussão. Leandro: Piano.
De "Brasil Musical". Gravado ao vivo no SESC Pompéia. São Paulo - SP.
Belíssima composição de Cesar Camargo Mariano, que sempre funde muito bem a Música Brasileira e o Jazz. Curumim já recebeu muitas interpretações, inclusive do Nó em Pingo D'Água, no album Salvador. Brasiliense, Marco Pereira é dono de uma gravadora extinta repleta de preciosidades.
8. Conversa Fiada
Rogério Souza
Performance por Nó em Pingo D'Água: Rogério Souza: Arranjo e Violão. Celsinho Silva: Pandeiro, Ganzá, Caxeta. Mário Sève: Flauta. Papito: Baixolão. Rodrigo Lessa: Bandolim.
De "Nó na Garganta". Rio de Janeiro. 1998. www.NoEmPingoDAgua.com.br
Novamente o Nó nos traz um arranjo que alcança os céus. Os novos compositores do Samba são assim, renovadores, contudo tradicionais.
9. Estiva Grande
Levi Ramiro
José Esmerindo
Levi Ramiro: Viola Caipira. José Esmerindo: Violão.
De "Maracanãs".
A viola caipira é um dos mais belos instrumentos do Brasil. Sua rusticidade nos traz cheiro de comida caseira, balanço da rede, sotaque do interior. A pintura desta canção é um calmo carro de boi rumando em sua estrada de terra depois da chuva da tarde, sobre uma paisagem verde. Um dia após o outro, calmamente como o fluxo de um rio. Levi Ramiro, um desconhecido violeiro de Baurú, juntou pérolas num trabalho chamado Maracanãs, que chegou a mim pelas mãos de um grande amigo a pouco mais de um ano. É uma obra tão rica, que continua demandando novas descobertas.
10. Mourão
Guerra Peixe
Performance por Quinteto Armorial: Antônio José Madureira: Viola Caipira. Edilson Eulálio: Violão. Fernando Torres Barbosa: Marimbau Nordestino. Egildo Vieira: Pífano e Flauta. Antonio Carlos Nóbraga: Rabeca e Violino.
De "Do Romance Ao Galope Nordestino".
O Movimento Armorial nasceu oficialmente em 1970, encabeçado por Ariano Suassuna, e se interessa por diversas facções da arte. Ele expõe as origens da cultura nordestina, enraizada em tradicões medievais. Juntamente com Deodora(1), esta cancão mostra a total desmilitarizacão das fronteiras musicais entre as civilizações. O Quinteto, inexistente hoje, é ainda uma das realizações mais expressivas desse movimento. Um de seus ilústres membros é ninguém menos que Antonio Nóbrega, brincante da mais vadia eloqüência.
11. Forró Brasil
Hermeto Pascoal
Hermeto Pascoal: Sax Soprano. Nenê: Bateria, Percussão. Itiberê Luiz Zwarg: Contrabaixo. Zabelê: Surdão. Cacau: Sax Tenor. Jovino José dos Santos: Piano. Pernambuco: Triângulo, Percussão. Nivaldo Ornelas: Flauta.
De "Hermeto Pascoal Ao Vivo". Gravado ao vivo no Momtreaux Jazz Festival. 1979.
Talvez não haja um músico vivo tão luminoso quanto Hermeto. Capaz de arrancar melodias de tudo que houver pela frente, de qualquer forma, a qualquer hora, não tem compromisso com nada e ninguém. Completamente livre, suas criações são absolutamente originais, dissonantes e belas.
12. Feia
Jacob do Bandolim
Performance por Nó em Pingo D'Água: Rogério Souza: Arranjo e Violão. Celsinho Silva: Pandeiro, Ganzá, Caxeta. Mário Sève: Flauta. Papito: Baixolão. Rodrigo Lessa: Bandolim.
De "Receita de Samba". Visom. DDD. Rio de Janeiro. 1991. www.NoEmPingoDagua.com.br
A despretensiosa genialidade de Jacob do Bandolim é constantemente lembrada nas mãos de músicos como o Nó, que inovam o Choro sem perder sua doçura. O Nó, o Rabo de Lagartixa (+link), e outros grupos centrados no Rio, vem desenvolvendo um hard-Choro elétrico - sem esquecer o passado - que o levará para seu terceiro século, mais vivo do que nunca.
13. Choro Para Bordões
Paulinho Nogueira
Paulinho Nogueira: Violão.
De "Brasil Musical". Gravado ao vivo no SESC Pompéia. São Paulo - SP.
O nome "Chorinho" vem do século XIX. Nasceu da idéia da corda do violão vibrar, "chorar". Acabou se tornando algo muito alegre. Paulinho nos traz este genial Choro triste. Suas interpretações não pecam pela simplicidade. E nos arrancam lágrimas.
14. Lôro
Egberto Gismonti
José Paulo Becker
Performance por Trio Madeira Brasil: Ronaldo do Bandolim: Bandolim. José Paulo Becker: Viola Caipira. Marcello Gonçalves: Violão de 7 Cordas. Zé Renato: Voz. Zero: Percussão.
De "Trio Madeira Brasil". Rio de Janeiro. 1997.
Foi num show do Trio que percebi como esta música tem o poder de contagiar a todos. Esta belíssima melodia do Egberto foi temperada com o genial arranjo do Trio, que interpretou-a com, quem diria, uma viola caipira. E foi esse o motivo de incluí-la, ao invés da versão original.
15. O Beijo
Marcelo Quintanilha
Marcelo Quintanilha: Violão. Chirstian Kirmayr: Flauta. Toninho Ferragutti: Acordeon.
De "Metamorfosicamente". 1997.
Música incidental. A versão original, mais longa, continha letra.
16. São Jorge
Hermeto Pascoal
Hermeto Pascoal: Voz, Piano, Violão. Nenê: Bateria, Percussão. Itiberê Luiz Zwarg: Contrabaixo. Zabelê: Voz, Violão. Cacau: Flauta. Jovino José dos Santos Neto: Percussão. Pascoal José da Costa: Improvisação das Palavras.
De "Zabumbê-Bum-Á". 1979.
Talvez não haja um músico vivo tão luminoso quanto Hermeto. Capaz de arrancar melodias de tudo que houver pela frente, de qualquer forma, a qualquer hora, não tem compromisso com nada e ninguém. Completamente livre, suas criações são absolutamente originais, dissonantes e belas.
17. Parafuso
Ronem Altman
Performance por Orquestra Popular de Câmara: Ronem Altman: Bandolim. Guello: Pandeiro. Toninho Ferragutti: Acordeon. Benjamim Taubkin: Piano. Mônica Salmaso: Voz. Mané Silveira: Flauta. Teco Cardoso: Flauta, Sax Soprano. Sylvio Mazzucca Jr.: Contrabaixo. Dimos Goudaroulis: Contrabaixo. Lui Coimbra: Contrabaixo. Naná Vansconcelos: Percussões. Caito Marcondes: Percussões. Zezinho Pitoco: Percussões. Paulo Freire: Viola caipira.
De "Orquestra Popular de Câmara". São Paulo. 1998. www.nucleo.art.br
Os anos 90 trouxeram a consciência da globalização. E este fenômeno está muito presente na música da OPC. Em suas apresentações pode-se ver uma enorme gama de instrumentos, numa mistura nunca dantes experimentada. Juntamente com o Duofel(5), a OPC é uma expoente da vanguarda paulistana. Considero esta canção o sopro mais inovador da Iconologia. Se ela fosse um edifício, seria arquitetura contemporânea: funcional, bela, forte e leve.
18. De Cara Para O Sol
Ulisses Rocha
Ulisses Rocha: Violão. Armando 'Marçalzinho': Percussão. Pedro Ivo: Contrabaixo.
De "Brasil Musical". Gravado ao vivo no SESC Pompéia. São Paulo - SP. www.ulissesrocha.com.br
Ulisses é um cientista da música. Violonista, desenvolveu um estilo próprio, original, diferente. Mesmo assim, com um pé no New Age, é inconfundivelmente brasileiro. Esta música tem o nome perfeito, e não há melodia que traduza melhor as palavras de seu nome. Uma manhã ensolarada, ar frio, paz de espírito, descompromisso e uma planície verdejante para correr de braços abertos.
19. Redomona
Os Serranos
Renato Borghetti: Gaita de Ponto. Daniel Sá: Violão.
De "Brasil Musical". Gravado ao vivo no SESC Pompéia. São Paulo - SP.
Música do Sul. A Gaita de Ponto de Borghettinho (as vezes confundida com acordeon) e a guitarra de Daniel maqueiam com Jazz esta tradicional Gaucha.
20. Tocata Em Ritmo de Samba
Radamés Gnatalli
Raphael Rabello: Violão.
De "Brasil Musical". Gravado ao vivo no SESC Pompéia. São Paulo - SP.
Perdemos Raphael em 1995 por overdose. Uma de suas últimas aparições foi no filme O Mandarim de Júlio Bressane, interpretando Villa Lobos de chapéu, tocando violão sentado no galho de uma árvore. Antológico. Deixou um legado de interpretações que o elevou a um dos maiores instrumentistas de nosso tempo.
21. Frevo
Egberto Gismonti
Ulisses Rocha: Violão. Teco Cardoso: Flauta, Sax Soprano. Sylvio Mazzuca Jr.: Baixo Elétrico.
Juntamente com Lôro, as cores amarelo e verde destas composições as tornam as mais expressivas do mestre. Simplesmente Egberto Gismonti, interpretado pela nata instrumentista do Brasil: Ulisses Rocha e Teco Cardoso.
22. Valsa de Uma Cidade
Antonio Maria
Ismael Neto
Zé da Velha: Trombone. Silvério Pontes: Trompete, Flugel. Humberto Araújo: Sax Soprano.
De "Só Gafieira". 1995.
O debochado timbre destes instrumentos pinta o final de uma madrugada boêmia, em que três amigos, caminhando pelo meio da rua com a alvorada por detrás, voltam felizes para casa. Talvez assim esta valsa foi composta.