Moscow, Paris, São Paulo

Este relato é parte de uma viagem à Ásia Central que começa aqui.

Parque Izmaylovsky

  • Levantamos às 8h, fizemos o grosso da mala e saímos com planos de conhecer o Измайловский парк (Izmaylovsky park), atravessando a rua do hotel
  • Para um sábado de manhã estava completamente vazio. Esperávamos ver pedestres, esportistas, bicicletas, etc. Mas nada. No máximo havia um ou outro par de amigos tirando fotos ou sentados comendo e bebendo. Em uma das entradas do parque, um carro estava parado com o som bem alto e algumas pessoas dançavam e bebiam em volta. A balada da noite anterior ainda não tinha acabado.
  • Vimos um lago no mapa, mas não o encontramos. Nem sabemos se fomos exatamente em sua direção. Muitos cachorros viviam no parque, provavelmente abandonados pelos seus donos, e as vezes eles latiam em coro.
  • Nos perdemos e tivemos que voltar correndo para fechar as malas e nos encontrar com o taxista na hora marcada.
  • Nem tínhamos tomado café e paramos em um dos terríveis supermercadinhos do outro dia mas dessa vez só levamos iogurte de beber e bolo pronto, para comer enquanto andávamos até o hotel. O bolo ostentava amêndoas na parte de cima, mas na primeira mordida ele nos enganou: era de amendoim.

Passaportsky Problema

  • Tomamos banho correndo, fechamos as malas, descemos para o check out, e o Victor estava a nos esperar com outro motorista. Pediu desculpas por não estar no aeroporto na chegada, mas não foi culpa dele. E nos deu um envelope com os 1700 rub que tínhamos gasto com o taxi da chegada. Muito nobre da parte dele. Então nos deixou com seu motorista e nos despedimos.
  • Pedi ao motorista (com muita mímica) que parasse em algum lugar para trocarmos os Rublos que sobraram para dolar e ele deu uma volta considerável para passar no centro. Conseguimos boas taxas, mas talvez não compensou a volta.
  • Apesar de ser sábado, pegamos muito trânsito inclusive nas highways. Ele se encheu e pegou algumas vias alternativas que andavam melhor. E chegamos no aeroporto sãos, salvos e na hora certa.
  • As russas que trabalhavam no check in da Air France/Aeroflot não eram de muitas palavras. Aliás eram de bem poucas palavras. Eram mesmo bastante secas. Mas fizeram seu papel e pronto. Despachamos as duas mochilonas diretamente para São Paulo porque a Tati havia deixado uma bolsa com roupas limpas em Paris na escala do começo da viagem, na casa de conhecidos.
  • Depois do check in você não pode ficar zanzando no aeroporto. Tem que passaportar e entrar direto nas salas de espera. Nesse processo, uma militar com cara de durona liberou a Tati e segurou meu passaporte e cartão de embarque. Não havia muita comunicação. Pediu para eu esperar logo ali, e eu perguntei “what is the problem?” e ela respondeu “problema, problema”. Ai meu Deus.
  • Depois de esperar alguns bons minutos de pé apontei para o relógio indicando que tinha um vôo para pegar. Veio um oficial fardado com um inglês razoável e disse que meu passaporte teria que passar por uma vistoria dupla. Não entendi se era problema específico com o meu passaporte ou se tinha sido escolhido aleatoriamente.
  • O oficial também disse que o vôo não pode decolar sem a autorização “deles” e que eu podia ficar tranqüilo. Aquilo não me tranqüilizou muito porque demonstrava muito poder: se eles podiam segurar um avião, podiam muito bem segurar um zé mané como eu também. Então ele sumiu.
  • Vários outros minutos depois e sem ninguém para falar reclamei com a durona novamente. Ela não estava muito aí e mandou continuar quietinho. A Tati foi comprar vodka de presente no free shop.
  • Já chamavam o nosso vôo para o embarque e comecei a surtar. “Ô durona, como é que eu fico aqui?” é o que eu queria falar, mas me limitei as mímicas.
  • O oficial baixinho e loiro e que gostava de dizer que tinham o poder nas mãos reapareceu. Informei-o que já chamavam para embarcar e ele novamente disse que não decolariam sem a ordem deles, mas era para eles não decolarem sem mim. Disse que meu passaporte tinha um problema de rasura no ano de validade. O “8” do “2008” era meio diferente dos outros algarismos. Eu custei a perceber isso. Ele pegou meu passaporte de dentro do guichê da durona para me mostrar. Achei que tinham levado-o para outro lugar para ser analisado, mas não: ele ficou com a durona que não fez checagem dupla nenhuma, pois carimbava outros passaportes da fila.
  • Eles me devolveram o passaporte e saí com a impressão de que aquilo foi puro terrorismo psicológico sem nenhuma base, e que a data de validade do passaporte podia até estar escrita a mão. Além do mais, havia entrado e saído de uns 4 países sem problemas, inclusive na Rússia, e não era ali, na saída do país, que tinham que encrencar.

Paris, Cidade das Luzes

  • Pegamos o vôo da Air France a tempo e o nível de simpatia já mudou quando um comissário francês percebeu que éramos do Brasil, disse que gostava muito de nosso país e nos deu um tratamento especial.
  • Entramos tranqüilamente na França e encontramos o Larbi, amigo da Tati, que veio nos pegar de carro. A Tati ia ficar alguns dias em Paris e o meu vôo era dali a umas 7 horas, o que nos dava tempo para passear mais em Paris.
  • Chegando na cidade, o trânsito de sábado estava péssimo. Estacionamos e fomos a pé até um bar na beira de uma represa no meio da cidade. Parecia que o Rio Sena começava ali. Mas estava lotado e fomos embora.
  • De metrô, fomos até Montmartre e de lá a pé até a Basílica de Sacré Cœur (mapa). As ruas sempre cheias de turistas. Perto da basílica, muitos jovens se amontoavam na escadaria para se assistirem e também a showzinhos de voz e violão amplificados que aconteciam esporadicamente lá. Um pouco mais afastado, um homem tocava violão mais seriamente e soltou um samba sem que pedíssemos. Seu CD, que estava à venda, tinha outros temas brasileiros e também Street Beat do David Hewitt, uma música lindíssima e pouco conhecida.

  • Quando dizem que Paris é a Cidade das Luzes, saibam que é com bastante propriedade. Ela emana beleza, humanidade, diversidade, cultura e bem estar.
  • Ao caminhar pelas estreitas e belas ruas de Montmartre sentimos isso. Casas aconchegantes se mesclavam com pequenos parques e chafarizes, onde crianças construíam seus castelos de areia e adultos jogavam bocha. E também placas de sítios históricos, herdades e bustos de cantoras que deixaram saudade. Mais cafés charmosos com mesinhas na calçada.
  • Paramos num desses para encontrar com outro amigo da Tati, o François, e comer algo. Era um lugar descolado e moderninho com direito a garçom que fazia gracinhas. A certa altura o cozinheiro azulão trouxe um balde para uma das mesas e fez saltar nossos olhos enquanto enchia de chocolate líquido do balde as travessinhas de petit gâteau que seriam assadas em seguida. Ao terminar o importante trabalho, traçou tranqüilamente, sentado no mesmo lugar, um sanduíche de baguete, enquanto conversava com alguns garçons e outras pessoas de pé. Uma cena tão parisiense.
  • Começou a anoitecer e esfriar e tínhamos que voltar ao carro do Larbi de metrô. Fomos ao apartamento dele, tomou banho enquanto a Tati embrulhava uns presentes e fomos de metrô à festa de aniversário da Clarie, outra amiga da Tati.
  • Se no metrô de Moscow há só loiros, o de Paris é uma salada étnica. Havia 3 mulheres negras vestidas com turbantes e tecidos coloridos, falavam uma língua bonitinha, rara de se escutar no Brasil, de sílabas simples com vogais que se repetiam. Larbi disse que provavelmente eram da África Subsariana. De qualquer forma, era uma delícia ouví-las conversar, mesmo sem entender uma palavra sequer. O mais engraçado era a combinação turbante e brinco LV da Louis Vuitton.

Hoje Terra é Pequena

  • Clarie mora num apartamento de uns 50m² (o m² é muito caro em Paris e é comum as pessoas morarem com pouco espaço), com sala, cozinha, quarto, banheiro e um terraço exclusivo que é o forte do apartamento. É um pouco maior que o apê do Larbi. Umas 10 pessoas alegres estavam de pé e se dividiam entre o social e assistindo um jogo importante de Rugby que passava ao vivo na TV. Foi divertido mas pena que já tinha que pegar o RER (trem intermunicipal) e tomar o vôo para o Brasil.
  • Tati me levou a estação correndo e me pôs no trem. Poderia ter feito isso sozinho, mas como estava atrasado, uma francesinha esclarecida foi importante para me colocar no trilho certo sem perder tempo. A despedida foi encurtada pela chegada do trem. Ela voltou para a festa da Clarie, e eu estava a cominho do Brasil.
  • O trem quase vazio parou em todas as estações e ninguém entrou nem saiu. O caminho era longo e fiquei apreensivo em chegar tarde. Mas cheguei bem na hora do embarque.
  • No vôo fechei os olhos tranqüilo, alimentando a saudade que em breve estaria morta. Saudade da família, sobrinhas, de casa, dos amigos, do bairro conhecido. Da língua que domino as gírias, o sotaque, a cultura local.
  • Compilei um pouco as memórias das últimas semanas e cheguei a conclusão que além do muito que descobri sobre muitas coisas, aprendi também sobre mim mesmo, sobre a Tati, sobre o que é viajar. E que viajar é, em parte, voltar para casa crescido e com vontade de abraçar o mundo.
  • Gilberto Gil já dizia: Antes mundo era pequeno porque Terra era grande / Hoje mundo é muito grande porque Terra é pequena / Do tamanho da antena parabolicamará.

3 thoughts on “Moscow, Paris, São Paulo

  1. Olá Avi, muito legal seu blog, com um texto bem leve e inspirador. Dei uma consultada para pegar dicas de Moscou. Aprontaram contigo lá, hein?! Um amigo já me alertou sobre a polícia de lá…

    Cara, gostaria de uma ajuda para divulgar meu blog, o viajandobemebarato.blogspot.com, que tem o objetivo de ajudar os turistas brasileiros a organizar, com segurança e conforto, uma viagem econömica pela Europa. Se puder me adicionar nos links do teu blog, beleza!

    Abraços!

  2. olá,Avi.
    Meu marido comprou ontem (29/abr)passagens para uma viagem a dois para Paris – presente dia das mães- e quando fui atrás dos nossos passaportes vi que expiram em 17/09/2009. Assim comecei a procurar informações, quando vi sua página. Será que para a França, com ingresso na Europa por Portugal, dará problema o tempo de validade? Como somos funcionários públicos obtvemos vistos de 5 anos: americano válido até ago/2011 e mexicano até jan/2013.

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