O Lago Karakul

Este relato é parte de uma viagem à Ásia Central que começa aqui.

Himalaya e Pamir

  • O cafe servido no hotel era idêntico todos os dias. Mesmo pão, mesma geleia, mesmo iogurte. Ainda bem que compramos umas frutas para variar.
  • Às 9h encontramos com Anwar e o Sr. Gwan e nos mandamos ao lago Karakul por uma estrada asfaltada. Tentamos dormir o caminho todo mas aparentemente os motoristas chineses são formalmente instruídos a usar muito a buzina, com longos apertos irritantes.
  • Paramos no mercado de uma vila no caminho para comprar nan e romãs tao doces como eu nunca vi.
  • A paisagem foi ficando montanhosa e muito bonita, apesar de completamente árida. Rumávamos ao longo de um rio quase seco em direção a montanhas altíssimas de pico nevado que Anwar disse ser do Himalaya. Isso ergueu bastante o meu humor. Disse também que o Pamir era parte do Himalaya. A estrada levava ao Pakistan e era bem melhor que a que ia ao Kyrkyzstan.
  • O lago tem talvez o mesmo tamanho da Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio, mas é mais comprido e com certeza mais raso. Era envolvido primeiro por planícies de pastagem rala e depois por montanhas nevadas. Anwar disse que sua água é potável. Era também de um verde-turquesa incomum e arbitrário que saltava aos olhos no meio da paisagem desértica.
  • Estava razoavelmente frio mas o forte vento gelado fazia ser um pouco sofrido ficar lá. Não estávamos preparados para aquilo. Depois de uma caminhada, voltamos para o carro.
  • Fomos para o outro lado onde havia uma grande planície bem delimitada pelas montanhas e o lago, e onde camelos, jumentos e iaks pastavam livremente. Pulamos uma cerca, corremos atrás dos bichos fujões, tiramos umas fotos e voltamos para o carro quentinho.

Caça ao Sorvete de Ouro

  • Dormimos praticamente toda a volta e chegamos em Kashgar umas 16:30 secos por um sorvete. Marcamos com Anwar jantar às 20h, despedimos e fomos bater perna.
  • Perto da rua das lojas e galerias encontramos uma feira que parecia a sucursal chinesa-han do Mercado de Kashgar do dia anterior, que era mais uyghur. Muitos restaurantes/barracas de lamen e umas carnes estranhas. Conforme passávamos nos chamavam para comer.
  • Nos enchemos de procurar um sorvete descente e tascamos uns picolés vagabundos por 1 yuan cada.

Regras Sociais

  • Ai entramos em um restaurante fancy chamado Eversun Cafe, de “westfood”. Tinha ambiente agradável, tocava uma musica zen e o cardápio era bem mais caro que a média, mas ainda barato para padrões paulistanos. Pensamos em pedir ao Anwar nos levar para jantar ali mais tarde, mas precisávamos arquitetar como burlar seu preconceito aos chineses-han, e ver se seu budget do dia para refeições cobria aquela conta.
  • Chegamos no hotel umas 19h e tentamos usar a Internet lá mesmo, em computadores bem piores, link mais lento, por 8 yuan a hora (contra os 2 yuan do outro dia). Deixaram-nos instalar o Gizmo para telefonar mas não funcionou. Respondemos uns e-mails, organizamos umas fotos e Anwar chegou.
  • Levou-nos a um restaurante paquistanês atravessando a rua que era feio, tinha moscas e não inspirava. Sugeri irmos ao uyghur do primeiro dia, pedimos basicamente as mesmas coisas e foi ótimo.
  • Conversamos sobre casamento e dote, virgindade, aborto, independência das mulheres e dos jovens. A certa altura não olhava mais para a Tati devido as coisas que ele dizia, como a mulher ter que casar virgem, ser impura caso contrário e ser inaceitável um casal morar junto sem estar casado. Ficou um pouco constrangido no final porque, acredito eu, nossos argumentos eram muito mais fortes e bem embasados.
  • Talvez Anwar não seja a melhor pessoa para defender sua civilização, mas todos os exemplos que dava mostravam como essa sociedade era materialista, voltada às aparências, machista e atrasada aos nossos olhos ocidentais, apesar de ter uma veste espiritual e altruísta. O mais impressionante para nós foi ver até que ponto esses códigos estavam gravados em seu Eu porque mesmo vivendo um casamento aparentemente infeliz — ou ao menos indiferente —, Anwar continuava defendendo a virgindade, a compra da esposa pelo futuro marido, a castidade antes — e até depois — do casamento, e desprezava a “sujeira” das relações sexuais e a vilania do prazer.
  • Depois de nos despedirmos, comemoramos a sorte de termos nascido numa sociedade como a nossa, mesmo com todas as suas imperfeições.
  • Chegamos umas 22h no quarto, fizemos as malas, tomamos banho e fomos dormir.

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