O caminho para Moscow

Este relato é parte de uma viagem à Ásia Central que começa aqui.

Voando na Sibéria

  • Vamos hoje fazer Kashgar-Urumqi-Novosibirsk-Moscow. Uma longa viagem com muita troca de aeronaves e re-check-ins.
  • Às 7:30 fomos fazer check out e encontrar com Anwar. A moça da recepção se ausentou e voltou minutos depois com uma camiseta que deixei no quarto para o santo, o que significa que ela mesma foi fazer a verificação de saída. Quando digo que esse hotel é meio miserável vocês precisam acreditar em mim.
  • No aeroporto, Anwar nos pôs na fila, deu o xerox do fax do bilhete dos vôos dizendo que isso era suficiente, se despediu e nos deixou. Não foi muito calorosa a despedida.
  • Varias pessoas tentavam furar a fila do check in no aeroporto. Impressionante como uma sociedade cheia de regras não consegue respeitar as mais óbvias.
  • Depois de respirar muita fumaça de cigarro na sala de espera, tomamos o vôo Kashgar-Urumqi da Hainan Airlines num Boeing moderno.
  • Já em Urumqi, um chinês de dentes completamente marrons nos pegou, deu o bilhete até Moscow, e nos levou ao outro terminal — o internacional —, concorrendo com os carros pois não havia calçada. Nos colocou numa fila qualquer que não andava e se despediu. Depois descobrimos que a fila era a do vôo para Baku no Azerbaijan. Mudamos para outra que só tinha loiros e que ia para a Rússia.
  • No check in a minha mala estava 3kg acima dos 20 permitidos. O funcionário colocou minha mochila de mão no lugar para passar no peso, mas despachou minha mala mesmo. Que trambique !
  • Queríamos gastar os yuan que sobraram, mas depois do check in não tem mais volta nem lojas. Os oficiais que carimbam passaporte só chegaram umas 14h. O Duty Free estava fechado. Só um bar/loja vendia de whisky a plantas e castanha de caju. As garçonetes andavam com um bolo de dinheiro na mão, vendiam agressivamente, e tinham olhar de “mani mani mani”. Falavam inglês precário, com muito sotaque e orientado a valores. Os preços obviamente variavam de acordo com a cara do cliente, e sempre perguntavam quanto ele pagaria depois que fizesse expressão de “está caro”. Uma bonita caixa de chá de jasmim muito perfumado começou por 150 yuan mas o levamos por 100 yuan. Uma barrinha de chocolate começou em 15 yuan e saiu por 10 yuan.
  • O vôo da Siberian Airlines estava vazio. Era um A319 novo decorado com cores fortes, modernas e bonitas. Tinha o mesmo espírito jovem da Gol. Voamos esticados, confortavelmente, conversando sobre a impressionante história da URSS/Rússia que líamos no Lonely Planet e o que iríamos ver nos próximos dias.

Tajiks na Sibéria

  • O pouso em Novosibirsk foi perfeito. Fica bem no meio do enorme pais, na Sibéria. A paisagem é completamente plana, sem nenhuma montanha para nenhum horizonte que se olhasse. E as cores eram de outono em todos os terrenos loteados, plantados e já colhidos para o inverno. Pena que não conhecemos mais da Sibéria.
  • No aeroporto entramos na fila do passaporte. Havia ao lado um bloco de rapazes chegando do Tajikistan. Uns 80, todos com os mesmos traços e cara de perdidos e inseguros, e só 2 mulheres. Estávamos em outra fila, não sei porque. Tinham dificuldade de manter fila e se amontoavam para serem atendidos. Quando chegava a vez do próximo, uns 4 davam passo para frente ao mesmo tempo mas só um vencia. Não os culpo pois não havia sinalização alguma de fila. Um funcionário gritava em russo de tempos em tempos algo como “ai, quero ver fila aqui, formem uma fila, aqui, bem aqui, por favor, uma fila gente, desamontoem”. Então davam uns passinhos para trás em bloco, nada que parecesse uma fila, e passava 1 minuto e reamontoavam de novo. Cena cômica.
  • De repente uma tal de Julia apareceu chamando pelos nossos nomes. Disse que iria nos ajudar na transferência para Moscow. Orientou na passaportagem, apresentou a Anastacia que iria ajudar com malas e tal. Esta nos levou para outro terminal, nos colocou para esperar numa sala elegante com WiFi de graça que não funcionava, levou nossos passaportes e voltou minutos depois com o cartão de embarque. Fomos superbem atendidos, também não sei porque (será que as mãos do Alê chegaram até Novosibirsk?). Até parecíamos VIPs.

O Poente Eterno

  • A entrada no avião russo foi sem finger, sem guarda-chuva, molhada e fria.
  • Decolamos em Novosibirsk às 19:50 GMT+7 e pousamos às 20:30 GMT+4 em Moscow. Demos 1/8 de volta ao mundo em 4 horas de viagem, quase tão rápido quanto a rotação da própria Terra.
  • Decolamos já a noite e voamos direto para o oeste, atrás do sol já posto. Com tanta vontade que ele chegou a nascer novamente para nós. De fato, durante as 4 horas da viagem o sol se manteve praticamente estático no horizonte e só desapareceu quando pousamos. Um fenômeno natural que só pode ser observado na nossa era de jatos.

Mapa: de Novosibirsk para Moscow

Universo Paralelo

  • O aeroporto de Moscow é enorme e iluminado. Havia um grande número de veículos de serviço circulando e muitos aviões. Mas onde estavam os nomes familiares? KLM, Air France, American Airlines, British Airways, Alitalia são substituídos por nomes que nunca vimos: Domodedovo, Kras Air, Berlin Airlines, Continental Airlines, S7 etc. Os aviões também eram diferentes, grande parte russos, com 3 turbinas na cauda, nenhuma nas asas e bico de outro formato. Era tudo muito igual e muito diferente, como pousar na capital de um universo paralelo.
  • Como nossos vôos foram todos mudados, chegamos em horário diferente do previsto pelo pacote e ninguém esperava por nós segurando plaquinha com nosso nome. Desesperamos. O aeroporto de Moscow, apesar de moderno, não eh exatamente amigável a quem não fala russo.
  • Muitos homens nos abordavam em russo oferecendo taxi de $80 a $50, mas dava medo. Eu só pego taxi assim no Brasil, onde sei julgar bem a intenção por trás do tom da voz. A única vez que tentei isso, em Buenos Aires, não foi uma viagem muito confortável e o cara tentou me enrolar. Então compramos esse serviço com cartão de crédito em um guichê por 1700 rublos, ± $70, e fomos acompanhados por um segurança até o carro. Dor de cabeça para que?
  • A saída do aeroporto foi intransitável e demorada. Vimos um novo terminal moderno, lindíssimo e enorme sendo construído.
  • Por volta das 22h, a viagem até o hotel durou uma meia hora sem nenhum trânsito. Começamos por algo que parecia a Rodovia Ayrton Sena, depois highways urbanas e um pouco de ruas de bairro até chegar no hotel. Moscow tem uma dimensão completamente maior que as outras cidades desta viagem. Muitos carros modernos, asfalto de primeira, placas claras, enormes e bem iluminadas, muitos outdoors, postos de gasolina e canteiros bem cuidados. Aroma de primeiro mundo. Moscow é uma velha Europa que contém a magnitude das highways americanas, uma mistura que me agrada.

Olá Internet

  • O hotel Izmaylovo é um complexo de edifícios enormes construídos para as olimpíadas. Tem 8000 camas e dizem ser o maior da Europa. Põe inveja também nos monumentais hotéis de Las Vegas. Ficamos no edifício Vega (Вега) de 3 estrelas.
  • Enquanto Tati fazia o check in, achei uma rede WiFi aberta e rápida disponibilizada pelo hotel. Liguei meu celular bacana, conectei-o por VoIP ao serviço do Gizmo e fizemos ótimas ligações para o Brasil. Checamos e-mail também, fiz backup deste diário e a Internet é linda.
  • O quarto parecia ter sido entregue ontem pelo reformador. Carpete novo, moveis modernos, banheiro limpíssimo de louça nova. Ganhamos inclusive um upgrade para um quarto com cama de casal.
  • Tomamos um banho maravilhoso sem molhar o chão do banheiro e fomos dormir quase meia noite.

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