Chegando em Kashgar

Este relato é parte de uma viagem à Ásia Central que começa aqui.

Neve !

  • Acordamos às 5h bem dispostos. No café nos deram um prato com fatias de salsichão frito, fuzili cozido na agua, um ovo cozido e salada de tomate e pepino. Mais manteiga e pão que no dia anterior já estava velho. Esta, adicionada ao fuzili, ficou ótima.
  • Caímos na estrada ainda no escuro e dormimos mais um pouco. A paisagem de planícies nuas envolvidas por montanhas ainda era impressionante.
  • Vez ou outra grupos de animais cruzavam a pista. Cavalos, bois, ovelhas e camelos. Os kyrgyz eram nômades e no último século muitos passaram a ser nômades somente no verão. No inverno voltam das pastagens para suas casas fixas. Fazia frio e os animais corriam provavelmente para se aquecerem.
  • Conforme a altitude aumentava a paisagem mudava de um pouco nevada a completamente branca.
  • A certa altura pegamos outra estrada para visitar Torugard que ficava a mais de 4000m de altitude. Um pouso para caravanas do século X ou XI (a mais antiga de toda viagem) no meio de um cenário completamente branco e gelado. Pitoresco. Brincamos um pouco com a neve e tiramos umas fotos.

Hora do Rush

  • Voltamos para a estrada de terra e dormimos mais um pouco. Estávamos no meio do nada indo para a fronteira com a China. Nada menos que 60km antes da fronteira havia o primeiro posto de inspeção e próximo dele havia uma fila enorme de caminhões-containers voltando para a China.
  • Quanto mais nos aproximávamos da fronteira, mais intenso era o tráfego de caminhões. Os caminhões chineses eram modernos e coloridos de marcas nacionais e os kyrgyz eram cinzentos e velhos, sempre da marca russa Kama3.
  • A estreita estrada de terra, mais a neve, mais o trafego intenso, mais os desfiladeiros, faziam a velocidade media ser baixíssima. Constantemente parávamos e esperávamos fora do carro. 200m antes da fronteira um dos caminhões chineses deslizou e bloqueou a pista. Mas depois de muito trabalho conjunto de outros caminhoneiros, inspirados pelo boneco de neve da Tati, ele conseguiu sair.
  • Chegamos na fronteira umas 13:30 e ficamos sabendo que outro caminhão deslizou no lado chinês. Isso era especialmente ruim porque só atravessaríamos se o nosso novo guia conseguisse chegar da China para nos pegar. Trocaríamos de condução também. Não sabíamos quanto tempo ele iria demorar, não dava para telefonar.
  • A fronteira não passava de uma cancela de ferro mais uma casinha no meio de um grande nada de montanhas nevadas. Alfandega e burocracia ficavam, vários kilometros antes e depois. Era sexta-feira e o posto fecha no final de semana. Se o guia chines não aparecesse teríamos que passar o final de semana arrumando o que fazer no Kyrgyzstan. Nossa última refeição foi às 5:00 da manhã e por sorte a Natalia trouxe um tipo de balas duras de queijo seco, salgado e coalhado, típicas dessa região, que ficamos chupando para enganar o estômago agonizante.

China Ma Non Troppo

  • Antes das 15h nosso guia chegou. Despedimos de Natalia e Sacha (que iriam passar mais algumas horas de mal retorno antes de conseguir almoçar) e trocamos a van por um carro sedan urbano.
  • Anwar era nosso novo guia. Homem simples, simpático e falava um inglês bem razoável. Apresentou-nos ao Mr. Ma, o motorista, dinâmico, veloz, muito comunicativo apesar de ser enorme e não falar uma palavra em inglês. Ambos tinham os olhos muito pouco puxados, eram chineses de nascimento mas de minorias uyghur (Anwar) e hui (Mr. Ma).
  • Viajamos por longos e estreitos 87km de estrada de terra, boa parte com neve e caminhões parados. A neve ia sumindo conforme descíamos, e a paisagem deste lado da cordilheira era completamente diferente. As rochas apresentavam um tipo de erosão escultural e tinham muitas cores. Fomos constantemente beirando um rio que ao longo dos milênios formou um canion cortando as montanhas de geologia moderna. Em épocas de cheia sua largura era de ate uns 100m mas a julgar pelo muri da estrada, não chegava a 2m de altura. Mas nessa época do ano não passava de um córrego que deixou um leito seco e infértil de cascalho.
  • A paisagem humana do lado chines é igual: kyrgyz criadores de ovelhas, cavalos, camelos, moradores de yurts e semi-nômades.
  • A estrada virou um bom asfalto logo antes do posto da alfandega (87km depois da fronteira, mas em uma região menos insólita). No posto tivemos que descarregar, preencher uns formulários, apresentar passaportes. Ônibus e caminhões de mercadores uyghur, kyrgyz ou sabe-se lá o que iam para a China carregadíssimos de tapetes e outras mercadorias. Eles furaram a fila algumas vezes. Havia também um free shop ali que vendia principalmente bebidas e cigarros. Todos os fardados eram etnicamente chineses, apesar daquela região ser dominada por outros povos.
  • Passamos a alfandega, recarregamos o carro e fomos atacados por cambistas. Despistamos todos. Em breve a estrada se transformou em duplicada e os 80km restantes passaram rápido. Fizemos os 170km em pouco mais de 3 horas.

Uma Beleuza de Hotel

  • Nos levaram ao hotel Seman que Anwar tratou de orgulhosamente vender como excelente e de propriedade de um uyghur. A recepção era iluminada com poucas lampadas fluorescentes de padaria, o que tornava tudo meio esverdeado. Mas isso era fichinha perto da decoração com espelhos fumê e temas floridos em alto relevo de gesso colorido coberto de purpurina que dominavam as paredes e teto. Um calafrio subiu pela espinha. O chão do refeitório era lavado tipo 2 vezes por mês e o banheiro era tão mal cheiroso quanto um banheiro público.
  • Sobre o quarto, motéis de beira de estrada eram mais bem decorados para nossos padrões ocidentais. Encheram as paredes com os tais gessos coloridos pintados de dourado em algumas partes. Tivemos que mudar de quarto porque o primeiro estava completamente empregnado de cigarro. A banheira era desnivelada, o chuveiro molha todo o banheiro, não davam tapete para o chão, o sabonete era muito mal cheiroso, forneciam só ½ rolo de papel higiênico por vez, os azulejos eram mal remendados e uma placa de plastico mal pendurada sob a pia escondia o encanamento. Não dava para juntar as camas, os móveis eram velhos e riscados, não havia onde colocar e abrir as malas, não há onde pendurar toalhas usadas e as cortinas eram das mais vagabundas. Ainda por cima o quarto era no 3° andar e não havia elevador. Só não dava para dizer “não é 3 estrelas nem aqui nem na China” porque estávamos na China.

Povo Uyghur 360°

  • A hospitalidade de Anwar se sobrepôs a sua sensibilidade para entender que estávamos há 2 dias viajando assados e sem banho e nos convocou para jantar em 10 minutos.
  • Ele nos levou a um restaurante de comida uyghur atravessando a rua. Era tudo que nossos intestinos sofridos não precisavam naquele momento. O hotel me deixou nervoso e descontei boa parte no doce Anwar que não tinha nada a ver com isso.
  • O restaurante tinha a mesma decoração do hotel com o acréscimo de muita fumaça no ar. Mas a comida estava ótima. Ele pediu um ótimo lámen vegetariano leve e sem pimentão para mim e um mais caprichado para a Tati. E mais vagens com pimenta e gergelim, uma salada de cenoura, pimentão e pepino bem apimentada e outra que tinha base similar mas com menos pimenta e mais cominho, e também um prato de pepino fatiado que refrescava os outros ardidos. Veio também uma verdura que parecia um hibrido de acelga e cebolinha cozida com algum cogumelo que parece alga, e estava bem ardido. Destaque para o chá, de aromas bem mais complexos que o insosso verde dos dias anteriores, com cardamomo, cravo, açafrão, jasmim e outra especiarias.
  • Estimulado por nossa curiosidade, Anwar contava orgulhosamente sobre a região, a sociedade uyghur e como era sutilmente oprimida pela maioria chinesa do pais. Os uyghur são muçulmanos e etnicamente parecidos com os uzbekes e persas. Sua língua é também similar, e usam o alfabeto arábico. Contando, temos as línguas uzbek, kyrgyz e uyghur todas muito similares e derivadas do turco, mas usam o alfabeto latino, cirílico e árabe respectivamente. Uma salada etimológica.
  • O doce Anwar era um resultado confuso de antigas tradições, regras para um mecanismo social que deixou de existir e costumes vencidos. Um abismo de gerações isolado em sua cultura parou de perguntar o porquê de tudo aquilo e ao longo dos seculos a ação desprovida de pensamento transformou tudo em leis sagradas inquestionáveis. Essas mesmas características são encontradas em qualquer sociedade religiosa fechada e secular, como a judaica e outras.
  • A discriminação faz os uyghur se voltarem e valorizarem mais ainda suas tradições. Era o islã menos aberto de toda a viagem. Anwar contou que teve um casamento arranjado pela família, que tinha antes uma namorada que gostava muito e demorou para responder se gostava da atual esposa. Mesmo assim contou com orgulho como os índices de divórcio eram mais baixos entre os uyghur. Com altivez ingenua disse que deserdaria o filho se ele se casasse com uma chinesa, kyrgyz ou americana. Seu ponto era que tinha que ser muçulmana. Mais ou menos, porque kyrgyz e khazaks (de traços mongois) também são muçulmanos mas foram rejeitados de sua lista de namoradas ao filho, que continha uzbekes, tajikes e outros grupos persas.
  • Uma pessoa menos religiosa, talvez menos vitima da sociedade ou de uma sociedade mais aberta, e que tem parâmetros de outras culturas acaba fazendo simples perguntas que deixam pessoas como Anwar sem resposta e talvez sem chão.
  • Depois do jantar finalmente tomamos um longo banho e fomos dormir assistindo TV sem entender nada, mas achando um barato. Estava passando o filme Alexandre O Grande, bem conveniente para nossa viagem.

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